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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Colegiado de Artes Visuais da UFPA repudia condições de trabalho dos artistas do Carnaval de Belém.

Área da concentração das Escolas de Samba na tarde de 4 de fevereiro, dia do desfile do grupo especial. Foto de Diego Rodrigues.


Moção de repúdio

à Prefeitura Municipal de Belém, à Fundação Cultural do Município de Belém, à Liga das Escolas de Samba de Belém, e aos presidentes de Escolas de Samba.
Diante das notícias veiculadas desde a sexta-feira, dia 2 de fevereiro, tanto na imprensa paraense como nas manifestações de artistas e funcionários de escolas de samba de Belém em redes sociais, e considerando QUE:
Professores e estudantes do curso de Artes Visuais da UFPA trabalham como carnavalescos e artistas de barracão;
O curso de Artes Visuais se propõe a preparar profissionais para atuar em todas as atividades artísticas, inclusive escultores, aderecistas e outros profissionais que atuam em escolas de samba e blocos carnavalescos;
As alegorias saem dos barracões das escolas divididas em várias partes que são montadas na rua e na área de concentração das escolas de samba;
Os indicadores de influência de maré em Belém entre o dia 1 e 4 de fevereiro apontam coeficientes entre 91% e 106%, ou seja, que era previsível a ocorrência de maré alta;
A área de concentração para o desfile na Marechal Hermes, bairro do Reduto e zona portuária de Belém, sofreu com alagamentos provocados pela alta de maré e pelas fortes chuvas;
A ocorrência de maré alta adentrou a cidade pela tubulação de esgoto e trouxe esse esgoto para as ruas do bairro do Reduto;
Para que o espetáculo promovido pelas escolas de samba de Belém fosse concluído em tempo para o concurso oficial de escolas de samba de Belém, escultores, carnavalescos, aderecistas e outros artistas e profissionais da cultura do carnaval trabalharam em ambiente completamente insalubre e degradante, com água fétida na altura de suas panturrilhas.
Por esses motivos, e considerando, ainda, que artistas, assim como quaisquer outros profissionais, merecem respeito e condições dignas de trabalho, o Colegiado do Curso de Artes Visuais da FAV-ICA/UFPA, reunido na manhã de 5 de fevereiro de 2018, manifesta :
Veemente repúdio à Prefeitura Municipal de Belém, à Fundação Cultural do Município de Belém, à Liga das Escolas de Samba de Belém, e aos presidente de Escolas de Samba, pelas péssimas condições de trabalho, insalubres e degradantes, a que foram submetidos os artistas que trabalharam para o Concurso Oficial das Escolas de Samba de Belém.
E espera que, para os próximos anos, essa situação não se repita.
Belém, 5 de fevereiro de 2018
Prof. Dr. Ubiraelcio da Silva Malheiros
Coordenador do Colegiado do Curso de Artes Visuais
anexa a Lista de presença:




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Denúncia de homofobia marca apuração das notas do carnaval de Belém.

Edson Neves, Porta-estandarte do Bole-bole, pode ter sido alvo de homofobia.

Circula pelas redes sociais denúncia de homofobia contra o sr. Éder Cristino, que julgou a apresentação dos Porta-Estandartes para o concurso do desfile das Escolas de Samba do grupo especial de Belém, concurso promovido pela FUMBEL/ Prefeitura Municipal de Belém.
Existe critério de julgamento para cada quesito, no caso do Porta-Estandarte os critérios determinados pela FUMBEL são: ser sambista nato; conduzir o estandarte de forma majestosa, sem deixar que ele se arraste, embole-se, etc.; apresentar a agremiação aos presentes, pois ele apresenta o título do enredo; sua adequação ao enredo quanto à indumentária, bem como sua colocação distribuída no contexto das alas. Constitui erro grave: quebra ou perda, mesmo que acidental, de partes da fantasia ou do próprio Porta-Estandarte; e a queda do sambista.
A jurada que deu 10 se baseou nesses critérios, mas a denúncia que está publicada nas redes sociais diz que o julgador Éder Cristino considerou que Edson Neves cometeu um erro grave de sexualidade. 
É inadimissível manifestações de homofobia por parte de qualquer cidadão, ainda mais quando registrado em comentários de jurado de carnaval. Sugiro aos carnavalescos (que tem a prova material expressa nos mapas de notas) que denunciem o fato na delegacia de crimes discriminatórios e que solicitem para a FUMBEL a anulação dos votos desse jurado homofóbico e a recontagem da apuração do concurso do desfile das escolas de samba de Belém.


segue cópia da denúncia no perfil de Margarida Gorda no facebook.


"EDSON NEVES peço desculpas à você pela exposição e, licença para revelar publicamente as notas que você tirou com os nomes dos jurados e suas justificativas.


Nota 10 - Jurada: Ludmila Mello - Justificativa: "apresentação bem executada, porta estandarte defendendo o tema da Escola enfatizando, em sua evolução, a elegância e alegria. Indumentária adequada ao enredo e ao contexto de distribuição das alas. Estandarte conduzido de modo que fora possível a comunicação que tratava o tema".

Nota 8 - Jurado: Éder Cristino - Justificativa: "bom o que tenho para falar do Porta Estandarte é muito bom, mas com trejeito feminino, isso não é bom, procurar melhorar a expressão, independente de qualquer coisa, não tenho nada contra a sexualidade de ninguém, só acho que não é cabível coreograficamente, é uma pena que um figurino lindíssimo não seja tão explorado como deve. Sr. coreógrafo fazer atenção, assim terão muitas melhorias neste quesito. Esta crítica não é detonando ninguém, mas sim para a melhoria da Agremiação".



Peço a todos que não compactuam com preconceito, seja ele de qualquer natureza, ordem, classe, etc., que não curtam mas, que compartilhem o que esse irresponsável e preconceituoso homofóbico assumido fez não só com um árduo trabalho feito para que a Bole-Bole fosse linda para a Aldeia, desrespeito com toda a comunidade guamaense e simpatizantes e brincantes dessa Escola espalhados por toda Belém e Pará inteiro mas, principalmente com um ser humano maravilhoso, competente em tudo o que faz e merecedor de muito respeito. O sr. Éder Cristino disse não querer detonar ninguém, mas vamos detonar com esse preconceito em pleno carnaval. Galera essa justificativa está disponível na Bole-Bole e na FUMBEL. Bjs Edson você é nota mil!!!!!"

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Quem cria filhos dos outros é japiim....

Texto construído a partir das perguntas de Diogenes Brandão para uma entrevista para o blog "As falas da polis", uma entrevista em que ele me pediu para comentar o financiamento do enredo da a imperatriz Leopoldinense por parte do governo do Estado do Pará.

 

Quem cria filhos dos outros é japiim....

Esse 'negócio' de patrocinar escolas de samba do Rio de Janerio me parece muito mais uma forma de corrupção – desvio de dinheiro público que perversamente sai dos cofres paraenses como financiamento cultural –, do que política cultural eficiente, e eu concordo plenamente com a opinião dos carnavalescos de Belém de que há equívocos na política  que se utiliza de dinheiro dos contribuintes de estados e municípios amazônidas para financiar a industria cultural carioca.
Vamos pensar um pouco, em 1970 a Portela desfilou com o enredo “Lendas e mistérios da Amazônia”, em 1974 Joãozinho Trinta veio com o Salgueiro apresentando o enredo “O rei de França na ilha da assombração” (falando de São Luís),  no mesmo ano o Império Serrano fez a “Aquarela do Brasil” e fez um passeio pelos estados de norte a sul do país, em 1975 a Estácio de Sá apresentou o enredo “Festa do Círio de Nazaré”. São exemplos de carnavais memoráveis que tiveram todo o apoio na colaboração dos intelectuais e artistas de cada um dos lugares homenageados, mas que não precisaram de financiamento público vindo dos paupérrimos estados amazônicos e nordestinos e foram realizados apenas com a subvenção anual do Município e do Estado do Rio de Janeiro.
Então o que mudou de lá pra cá?
Houve uma época em que as escolas de samba cariocas representavam a voz do morro e a voz do povo oprimido,  e nessa época o que a gente via no carnaval? A gente via crítica à política e aos governantes, via o deboche com a situação financeira, via a afirmação de identidade negra, e via esses enredos sobre as diversas regiões brasileiras como uma demonstração de multiplas identidades. Esses eram enredos que eram provocadas pro grupos migrantes dessas regiões que se tornavam parte das comunidades de samba cariocas e acabavam por despertar a curiosidade sobre seus lugares de origem e provocar enredos sobre eles.
A presença do sambista paraense 'Dominguinhos do Estácio' foi fundamental para que a escola apresentasse o Círio de Nazaré no desfile do Rio, assim como a presença do carnavalesco maranhense Joãozinho Trinta no Salgueiro gerou o enredo sobre São Luís, e usar esses lugares de origem era uma forma de homenageá-los também.
E o que se vê hoje? Ao invés dessa integração personalidade/comunidade/enredo, nós assistimos ano-após-ano pelo menos uma escola de samba que apresenta apenas uma propaganda política, por um lado justificada pelo financiamento, e por outro justificada pela provável visibilidade que o estado/município terá com uma hora e pouco ininterruptas de transmissão televisiva na apresentação do enredo...
Para as comunidades das escolas de samba esse processo também se tornou sofrível. A diretoria das escolas passam longe das personalidades que construíram cada uma delas, da mesma forma como passam longe das comunidades que defendem as bandeiras das escolas, e não se vê personalidades das comunidades a propor enredos com ressonância social, mas “produtores culturais” e “lobbystas políticos” a negociar montantes de dinheiro com articulação de financiamento de corporações econômicas ou de verba pública de estados distantes. É visivel que as pessoas que desfilam nessas escolas não tem envolvimento nenhum com a defesa do discurso que o enredo apresenta....
Enquanto escrevo aqui minhas considerações escutei o também paraense Milton Cunha comentar que uma alegoria do Salgueiro só existe por imposição do patrocinador, e me veio uma outra questão.... Mesmo que não venhamos a fazer isso aqui, num espaço pequeno para respostas, mas não podemos desvincular esse processo de venda de enredos do processo de desterritorialização das escolas de samba como espaço resistência negra e resistência popular – e a perda do território chegou com a absorção da manifestação popular pela indústria cultural. Em 1982 com o enredo “Bumbum paticumbum prugurundum” o Império Serrano cantou num refrão a denúncia do que acontece hoje, “Super Escolas de Samba S/A/ Super-alegorias/  Escondendo gente bamba/ Que covardia!” Enfim, é isso – atualmente vivemos uma covardia! Tanto covardia com as comunidades das escolas de samba quanto com o desejo dos povos amazônidas de se verem em transmissão de televisão – mas um desejo que não se concretiza...
E essa propaganda dá certo?
Eu me lembro quando Macapá fez 250 anos e, seguindo essa mesma linha que eu considero equivocada, de propaganda e visibilidade através do carnaval carioca, o prefeito João Henrique (eleito pelo PSB e que depois migrou pro PT), e o ex-governador do Amapá Waldez Góes (PDT), também enviaram zilhões do povo amapaense pra financiar o desfile da Beija-Flor em troca de hora e meia de visibilidade na globo (ou era isso que diziam), e a primeira coisa que o comentarista dessa emissora disse quando a escola entrou na avenida foi algo como "é importante esse trabalho que as escolas de samba fazem de trazer a história dessas cidades pra gente conhecer. É! Porque pra nós Macapá é mais longe que marte....
Ou seja, a primeira propaganda foi negativa e pagar pra falarem bem da gente não diminui o preconceito que o "sul maravilha" dispensa pra Amazônia e vemos os comentaristas dizerem essas pérolas.
Porém, dando créditos pra esse equivoco, acho que para mensurar os efeitos disso precisaria de uma pesquisa mais aprofundada do que o empirismo da minha análise. Penso assim, se o governo é sério no tratamento do dinheiro público, e financiou uma escola de samba de outro estado como forma de propaganda turística, esse mesmo governo tem por obrigação apresentar para a população o resultado desse investimento e nos mostrar como foi que o desfile da Beija-flor em 98, da Viradouro em 2004, e da Imperatriz em 2013, influenciou positivamente o turismo em Belém e no Estado do Pará.
Mas, pra termos dados para fazer comparações sobre a relação custo benefício e dissipar qualquer dúvida de desvio de dinheiro público para interesses particulares que possa pairar sobre esses negócios, faço coro com a proposta dos carnavalescos e digo ao governo do Estado do Pará que em 2014 invista no carnaval de Belém o mesmo valor que em 2013 foi desviado para financiar uma escola carioca. Proponho que o façam como uma experiência, que usem a mesma quantidade de verba pública para estruturar a Aldeia Cabana de Cultura Popular David Miguel para que a população tenha mais conforto para assistir o espetáculo, e que também financie o espetáculo que cada uma das oito escolas do grupo especial apresenta, assim como as oito escolas do grupo de acesso, e, mais, que se faça propaganda do desfile das escolas de samba de Belém nos estados vizinhos e até nos países do Caribe e naqueles que nos fazem fronteira no platô das Guianas, pois na minha opinião, e creio que na dos carnavalescos também, isso sim será uma política cultural que trará dividendos turísticos para o estado do Pará.... Isso sim trará turistas para Belém, turistas que virão para ver um espetáculo de 5 dias (que envolve quase cem mil pessoas) e que depois poderão circular para conhecer as cidades paraenses que guardam tesouros culturais/naturais.

Arthur Leandro
Artista ou coisa parecida.
Benemérito (e brincante) da Embaixada de Samba do Império Pedreirense
Professor da Faculdade de Artes Visuais e Museologia/UFPA.
Membro do Colegiado Setorial de Culturas Afro-brasileiras/ Ministério da Cultura
Representante titular das culturas afro-brasileiras no Conselho Nacional de Políticas Culturais/ Ministério da Cultura.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ver-o-peso da Pedreira do samba e do amor!





Mais um ano se passa e as escolas de samba de Belém vão desfilar novamente sem que a prefeitura garanta a infra-estrutura e o suporte financeiro para o carnaval. mas se os gestores pensam que acabam com as manifestações das culturas populares estão mais enganados que seus eleitores, afinal quem faz cultura é o povo, o estado apenas fomenta. E viva a cultura do povo da Pedreira.
Enquanto dias melhores não vem, os dias em que esperamos, da gestão pública e dos formadores de opinião, o reconhecimento e a valorização de um espetáculo que envolve mais de trêss mil artistas anônimos em cada uma das escolas de samba que vão para a Aldeia Cabana de Cultura Popular David Miguel contar as estórias de suas comunidades e da sua cidade, é no envolvimento e na disposição decada brincante que cada uma das agremiações vão buscar a força necessária para colocar o carnaval na rua.
É madrugada de segunda-feira e eu aqui na ansiedade da espera do sábado gordo e do desfile das escolas de samba do grupo especial de Belém do Grão-Pará. Passamos o janeiro inteiro movimentando o bairro da Pedreira e a cada domingo arrastando multidões num desfile de alegrias contidas que, por si só, já vale às duras pemas da sobrevivência das manifestações das culturas populares no Pará, mas to falando é desse Pará dos amarelos anos do início da segunda década do século XXI.
E ai eu me pergunto o por quê da minha ansiedade?
É verdade, eu quero ser campeão com o Ver-o-peso na Embaixada de Samba do Império Pedreirense, mas eu também sei que jurados obedecem a um jogo de interesses econômicos e políticos que nem sempre resulta no campenato para o melhor desfile. Ano passado mesmo a Embaixada fez o desfile campeão e a nota maldosa de uma jurada que julgava samba de enredo a rebaixou para o quarto lugar, uma nota desonesta que não conseguiu desqualificar o melhor samba do ano, mas que tirou nossa escola da disputa do campeonato oficial.  
Mas nas ruas e fora dessa oficialidade todos sabem que o titulo não foi de quem levou a taça, e povo que faz a cultura da Pedreira já demonstrou que a Embaixada já é bi-campeã e que também tem o melhor samba de 2013.