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domingo, 31 de janeiro de 2016

Tailândia/PA, um relato das aulas de Laboratório (experimental) de narrativas gráficas.

A minha questão aqui, é relatar experiências de ensino que coloquem em evidencia as relações étnicas e raciais e a defesa os direitos humanos no Brasil e na Amazônia. Pra começar, vimos alguns exemplos de racismo, machismo e opressão social nas histórias em quadrinhos, e como exemplo re resistência: Mafalda!


Depois passamos para exercícios - exercícios de li-ber-da-de...


Me apoiei, e muito, nas experiências do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, e utilizei muitos dos exercícios propostos por ele, principalmente a encenação de relatos de situação de opressão sentida e vivenciadas pelos estudantes, e na sequência a encenação de reações àquela opressão sofrida. Também me apoiei muito em exercícios de libertação das opressões do corpo, inclusive com a proposta de dançar, e neste caso dançamos ao som das lutas de independência de Angola com "Muadiakime" do disco"Angola 72", de Bonga Kuenda.  





Depois dos exercícios, passamos a desenhar as situações propostas, e a criar quadrinhos com as narrativas de enfrentamento às opressões que os próprios estudantes foram vítimas...





Neste caso, as narrativas das histórias em quadrinhos produzidas em Tailândia não vão retroalimentar a ideologia das opressões e hierarquias raciais e sociais de (quase) toda a industria cultural das revistas em quadrinho, estas aqui vão habitar muros, campos e areiais, camisetas e zines, e, penso, tem a potência de provocar a reflexão sobre o contexto de vida da população na 'Amazônia Negra'.

















sábado, 8 de março de 2014

Pelo direito à memória de Mãe Doca, pelo direito à existências das tradições negras.

Um memorial para Mãe Doca, um memorial para todos nós.


Em 2003 e 2004 a Câmara de Vereadores do Município de Belém e a Assembléia Legislativa do Estado do Pará reconheceram a luta de Nochê Navakoly (Rosa Viveiros, ou Mãe Doca) como um importante foco de resistência para a manutenção das tradições de terreiros afro-amazônicos, e é em nome da luta de Mãe Doca que o dia 18 de março foi dedicado aos umbandistas e aos afro-religiosos através da Lei Municipal nº 8272, de 14 de outubro de 2003 (autoria do vereador Ildo Terra/PT) e da Lei Estadual nº 6.639, de 14 de abril de 2004 (autoria da deputada Araceli Lemos/ PSoL), e em 2009 a ALEPA ampliou a homenagem através do Decreto Legislativo nº 05/2009 (proposição da Deputada Bernadete Tem Caten/ PT) que instituiu na Assembleia Legislativa do Estado do Pará a Comenda "Mãe Doca" de mérito afro-religioso.
Mas ao mesmo tempo em que Município e Estado reconhecem a importância da luta dos povos tradicionais de terreiros de matriz aricana, e até nos instituem duas leis, o racismo institucional faz com que os gestores nada façam para promover o 18 de março e a memória das lutas contra o racismo, esse mesmo racismo que ataca o sagrado das tradições africanas presentes na diáspora amazônica.
Mas já que o poder público não faz, na manhã do dia 6 de março de 2014 nós instalamos um memorial para Mãe Doca na esquina da Av. Duque de Caxias com a Tv. Humaitá, um memorial que resgatou a história de seu terreiro e a sua presença naquela territorialidade dos bairros do Marco e Pedreira. Uma  base de mármore com uma placa de vidro com fotografias e textos explicando à população a importância de Mãe Doca, e através dela  a importância de toda a luta das mulheres negras amazônidas por uma vida digna com direitos de cidadão.

Menos de 10 horas para a memória de Mãe Doca.

O memorial para uma mulher negra, a história da sacerdotisa das tradições negras amazônidas que enfrentou o racismo e a polícia paraense, não durou nem 10 horas, e antes de anoitecer a placa estava em pedacinhos na encruzilhada mais próxima do lugar onde por aproximadamente 80 anos se manteve o terreiros de nagô Cacheu de Nochê Navakoly.
O monumento foi quebrado durante a forte chuva que caiu na tarde desse mesmo dia da inauguração. Uma das especulações foi de que o vento haveria quebrado o vidro, mas colocamos essa hipótese em dúvida por um detalhe, a base de mármore foi arrancada!

Uma chuva que não destelhou casas naquela área, nem tampouco derrubou as árvores do canteiro teria força suficiente para virar uma base de mármore fixada com cimento? Se apenas o vidro tivesse sido quebrado seria possível acreditar na hipótese de foi causado pelas intempéries de Tempo, mas como vento não vira pedra.... A hipótese que acreditamos é que foi ação humana motivada por racismo religioso.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Convite - Inauguração do monumento à Mãe Doca.


Convidamos a todos que lutam contra o racismo e pela valorização da cidadania e dos direitos humanos a comparecer na inauguração do Monumento em Memória de Mãe Doca (Noche Navakoly) no amanhecer do dia 6 de março de 2014 na esquina da Tv. Humaitá com a Av. Duque de Caxias, Belém/PA. Noche Navakoly (Mãe Doca) é o símbolo da resistência dos Povos de Tereiros de Belém. Mãe Doca era natural de Codó/MA, filha de santo do africano Manoel-Teu-Santo, seu Vodum é Nana e Toy Jotin, mas também recebia Seu Inambé. Ela foi presa várias vezes e ainda assim não desititu da luta pelo direito à consciencia relgiosa. Manteve até 1969 o seu Terreiro de Nagô Cacheu fundado em 18 de março de 1891 na Tv. Humaitá próximo à Duque de Caxias, o terreiro enfrentou a polícia e todos os tipos de preconceito em nome do direito ao culto religioso. Este ano de 2014, lhe rendemos a homenagem lhe presenteando um monumento público.
Período: das 7:30 as 10:30. Mais informações com Tata Kinamboji - 91-80353377, 99333077

domingo, 26 de janeiro de 2014

A Barbárie institucionalizada e os Bandidos de farda. Relatos de uma noite chuvosa.

Na noite de 24 de janeiro de 2014 um grupo de jovens, na maioria mulheres, foram brutalmente agredidos pela Polícia Militar do Estado do Pará na Praça do Carmo em Belém. É preciso tomar atitudes  para coibir os abusos dos militares na Amazônia brasileira, segue um relato reproduzido da postagem original do blog Minha Aruanda
"O que eu vi foi o soldado Luigi Barbosa da Policia militar de Belém levando um jovem (Daniel) aos empurrões acusando-o de desacato, e na tentativa de obter explicações seus amigos e sua namorada foram respondidos com socos pontapés e armas em punho, daí em diante as ilegalidades não pararam, espancaram uma mulher com mata leões, prenderam pessoas arbitrariamente e pra finalizar, solicitaram mais cinco viaturas para o local, o que resultava em dez viaturas e uns 25 soldados no total que desceram da viatura enlouquecidos espancando quem aparecia pela frente, batendo na cara das pessoas, encurralando-as e dando tiros para frente."

 

A Barbárie institucionalizada e os Bandidos de farda. Relatos de uma noite chuvosa. 


Na noite de 24 de janeiro a policia militar de Belém do Pará deu mais um exemplo do seu despreparo e falta de respeito para com quem paga seu salário. Nesta noite de sexta-feira, jovens artistas e estudantes promoveram mais uma feira libertária, ocupando a praça do Carmo com exposição de artesanato, performances artísticas, troca de produtos, audição de vinis, jam musicais e principalmente troca de afeto e valorização do ser humano. A feira que já vinha acontecendo algum tempo, caminha na contramão da política de cultural, se é, que se pode chamar de cultura, as festas que são realizadas nas casas de show aos arredores da Praça do Carmo, espaço que deveria ser preservado e, no entanto, as casas de shows atraem centenas de jovens de classe média alta que transitam no espaço sem informação alguma sobre a historia daquele lugar, consumindo além de muito álcool, música com o volume acima do permitido para uma área de patrimônio histórico. A criminalidade no bairro da cidade velha tem crescido na mesma velocidade em que cresce a conta bancária dos nossos governantes. É claro! É um bairro cercado por varias baixadas onde a população se multiplica sem acesso a informação de qualidade, educação, saneamento, saúde, e o mínimo de respeito. Você queria o que? Uma população de jovens bem vestidos e educados?
Agora, o que vi nesta noite de sexta feira, foi medieval! Primeiro vi um artista ser agredido por está expondo seu corpo numa performance artística. Um grupo de seguranças vestidos de preto e com cassetetes na mão o agrediam com palavras homofônicas e ameaças, quando as pessoas em volta tentaram explicar do que se tratava, também foram agredidas com palavras e ameaças. Estes seguranças ( até agora me pergunto porque são chamados de seguranças se só causam desordem?) ficam vigiando carros no local e exigindo cinco reais adiantado para os frequentadores das festas. Este tipo de cobrança é ilegal, é uma extorsão. Com a possibilidades de agressão por parte dos seguranças, os jovens então resolveram chamar a polícia.

Eis o que aconteceu segundo meus olhos. 

O que eu vi foi o soldado Luigi Barbosa da Policia militar de Belém levando um jovem (Daniel) aos empurrões acusando-o de desacato, e na tentativa de obter explicações seus amigos e sua namorada foram respondidos com socos pontapés e armas em punho, daí em diante as ilegalidades não pararam, espancaram uma mulher com mata leões, prenderam pessoas arbitrariamente e pra finalizar, solicitaram mais cinco viaturas para o local, o que resultava em dez viaturas e uns 25 soldados no total que desceram da viatura enlouquecidos espancando quem aparecia pela frente, batendo na cara das pessoas, encurralando-as e dando tiros para frente. Isso mesmo!!!!, Não para o auto, para frente, rifando vidas, do jeitinho que ele aprendeu na academia. Foi uma cena dantesca. Em meio às agressões, a tortura e a chuva intensa não tivemos como anotar nomes, filmar a grande parte, mas mesmo assim, todos nos encaminhamos para a delegacia naquela madrugada chuvosa, para além de registrar a violência sofrida, termos que assistir o cabo Luigi Barbosa ter que assinar o TCO como vítima. Realmente, compreendemos que todos que estão na polícia militar, são vitima de um sistema excludente que precisa de cães de guarda para proteger quem tem dinheiro. Mas no caso deste aspirante, o melhor termo é incapacidade mesmo, já que ele além de ser de família “bem sucedida”, estudou em colégio marista, o melhor centro de cooptação de uma cultura cristã/eurocêntrica, (tudo isso pode se substituir por cultura racista e discriminatória), mesmo assim, hoje em dia o que ele é? Um pau mandado que agride mulheres e pessoas inocentes para tentar ter autoestima, ou reconhecimento do restante da sua quadrilha. Agora me digam, é esta a policia que pagamos para manter a ordem? Para reprimir jovens em shoopings, praças e manifestações? Policias que na sua maioria, são corruptos, violentos e aproveitadores?
Também não consigo parar de pensar sobre o que é um corpo nu numa praça pública. Sobre como o corpo nu, livre e feliz causa medo, incomodo, ao ponto de transtornar um ser humano. Pura balela! Até isso querem nos dizer como usufruir, só permitido ver corpos nus, entre quatro paredes, na televisão, no big brother, que subjuga a mulher e a coloca como um prato de carne na prateleira de um supermercado. Isso é imposição do colonizador, que tinham vergonha dos seus corpos fétidos e deformados pelas doenças do além mar. Mulheres. Não posso deixar de falar aqui, sobre como a cada dia que passa me encanta mais este SER. Que é beleza! Que gera a vida! Que mata e morre por amor! Que é leal aos amigos e seus verdadeiros amores e convicções. Arrepio-me e me encho de orgulho das mulheres que estavam no corpo a corpo com o dragão da maldade, guerreiras Icamiabas, morrerei contando a todos nossos descendentes o tamanho de vossa coragem, não preciso citar nomes pois nos sabemos os olhares que se cruzaram durante a batalha!!

Amo Vocês e continuemos a luta!

Rodrigo Ethnos